Domingo de Lóri

Espaço de colagem de fragmentos

Nome: Nata
Local: Brazil

Segunda-feira, Agosto 18, 2008

Das inquietações em desuso (ou pelo menos, sufocadas)

Chegou afobado. Atropelando palavras, engolindo pausas. Emendando histórias. A respiração em suspenso. Vulcão em ebulição, queimando sua própria base.

Entrou arrebentando as travas da porta. Assustando e assustado pela força contida, de repente materializada em impulso. Derramava-se aos montes. Recolhia-se. Engolia de volta cada pedaço de si caído. Transbordante rio de águas turvas. Maré alta em busca de espaço.

Naquele instante se via inchado, atropelado, disforme, apertado. Criança a revelar segredo. Adulto invadido pelo medo.

Típico coração a se libertar.

Quarta-feira, Agosto 06, 2008



Era uma vez o desencontro mais profundo. Foi o dia em que ele andou pela casa. De um lado para o outro. Do outro para o lado. Reparou que o relógio estancara há tantas horas que seu tempo já passara. Com uma cara que também já não era sua, viu o mundo por olhos passados. Em imagens turvas, sucumbidas por desencaixes, percebeu mãos que, estas sim, tocavam o presente. Pés que, estes sim, sentiam o chão. Despiu-se. De si. Retirou uns pedaços vagos de sentido, folgados de aspirações desnecessárias, inchados de lembranças. Ficou pequeno. Mais leve. Do tamanho que cabia na sua vida.

Era a vez do encontro.

Segunda-feira, Agosto 04, 2008

Para o Pequeno Príncipe

Fernanda Young

Nossa, há quanto tempo... Como vão as coisas no seu pequeno planeta? Aqui, no meu, andam imensamente estranhas – muito baobá para pouca flor, se é que você entende meus simbolismos.


Quem sempre fala de você é aquela ex-miss que vivia chorando por sua causa, lembra? Ela me contou da sua amizade com a Raposa.

Príncipe, como você é meu amigo de infância, não posso deixar de alertá-lo. Cuidado com a Raposa. Ela parece uma coisa, mas é outra. Faz-se de fofa e é uma cobra, uma chantagista. Quando a conheci, ela disse que não podia conversar comigo, pois não sabia quem eu era. “A gente só conhece bem as coisas que cativou”, ela falou, toda insinuante.

Respondi que, se nós duas nos cativássemos, ela ficaria triste quando eu fosse embora. Foi quando saquei que ela queria ter um cacho comigo, pois a Raposa pegou no meu cabelo – eu estava loira na época – e disse que tudo bem, porque ela olharia os campos de trigo e se lembraria de mim.

Marcamos um encontro para o dia seguinte, às 4. E ela me pediu para chegar às 4 em ponto, dessa forma ela ficaria feliz desde as 3 somente por esperar o momento do nosso encontro. Achei estranho, mas pensei que fosse charme. Não era.

Cheguei 15 minutos atrasada e a Raposa surtou. Falou que nós somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos. E perguntou para mim, olhando diretamente nos meus olhos, se eu tinha consciência de que “perder tempo” com o outro é o que faz essa história importante. Percebeu o tom de chantagem? Ela joga na cara tudo o que faz em nome do outro. Ela deseja afeto, mas o quer como uma responsabilidade de mão única. Porém, também somos responsáveis quando nos deixamos cativar – relacionamentos são vias de mão dupla.

A Raposa exige a certeza de um compromisso com hora marcada, impondo regras à troca afetiva. As regras dela, claro, já que ela quer todo o afeto a favor de seu bem-estar. Chega a ponto de dizer que será feliz porque você virá. Como se a felicidade fosse algo condicionado ao outro, à espera do outro, ao encontro com o outro.

Veja que coisa infantil. São as crianças que precisam de horários certinhos e de associar suas emoções às pessoas com quem se relacionam. Sentindo prazer ou desprazer diante da ausência ou presença da mãe ou do pai ou de quem quer que seja. Na criança, ainda não há um universo interior, entendeu? Quando nós crescemos, temos de conseguir ver o mundo através das próprias perspectivas. Enxergar a beleza de um trigal sem nos lembrar de ninguém.

A Raposa, como uma criança assustada, quer que aqueles que a amam estejam com ela na hora em que ela deseja. Achando que eles são “responsáveis” pela felicidade dela. Ou seja, o outro lhe deve algo por tê-la cativado.

Desde esse dia, não falo mais com ela. E aconselho você a fazer o mesmo. Ela não é flor que se cheire.
Saudades distantes,

Fernanda Young

Sexta-feira, Julho 25, 2008

À dança de Ewá


Ao olhar no espelho, Ewá* vê vários rostos em um,
Mas todos se fundem naquela superfície macia,
Ao mesmo tempo dura e fria.
Uma cara que bem poderia ser de Ogum**.
Ela não esconde a vaidade,
O orgulho de quem tem identidade,
Não se entrega, crê nas suas verdades,
Nos tijolos levantados, de suor banhados,
Torrentes de séculos, terras, mares e oceanos.
Intriga profundamente aos estrangeiros,
De mãos presas e olhos vendados,
Com suas retinas de passados ligeiros.
Espanta aos acanhados, medrosos
e mesmo aos atrevidos e alados.
Todos se encolhem ao seu girar ensimesmado,
Furacão que envolve, protege e fortalece
Um ser mulher, longe do comum, que foge ao acabrunhado.

*Orixá das chuvas, do mistério e da magia
** Orixá guerreiro, deus que traz sempre uma espada pronta para o ataque e não perdoa uma ofensa.

Quinta-feira, Julho 24, 2008

A bailar

... e é o rufar dos tambores que nos ensina que na vida é preciso seguir com passos de maracatu.
Com a altivez de quem pisou em brasas e dormiu no frio.
Com o peito ereto de quem conheceu a dor e a dominou.
Mas com os braços de quem se deixa tocar pela brisa, convidativos ao abraço e firmes para um possível ataque.
Passos fortes, de quem tem no sangue, a ebulição das horas extremas e a mansidão da compreensão.

Imagem: Mauro Villas


Segunda-feira, Julho 07, 2008

Da musa da transitoriedade

"Aqui está minha vida.
Esta areia tão clara com desenhos de andar dedicados ao vento.
Aqui está minha voz,
esta concha vazia, sombra de som
curtindo seu próprio lamento
Aqui está minha dor,
este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança,
este mar solitário
que de um lado era amor e, de outro, esquecimento."

Cecília Meireles

Sexta-feira, Junho 27, 2008

Vendo o sol deitar



"Abre essa janela, primavera quer entrar"

Marcelo Camelo